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O MÉTODO GDS E SEUS ARQUÉTIPOS

19.04.2011

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MÉTODO GDS – “RESPIRAR É PREENCHER ESPAÇOS”

 

 

Atendo um paciente com problema de quadril, cujo ortopedista indicou fisioterapia antes de reavaliar a necessidade de cirurgia. Durante a última sessão, ele relatou que está percebendo uma redução progressiva da dor. Contente com o precoce resultado e com a possibilidade de "escapar" da cirurgia, ele me fez a seguinte pergunta: como os fisioterapeutas estudam o "físico" na faculdade ? A pergunta me soou um pouco ambígua, então aproveitei o modo como ele a elaborou para utilizar um "jogo de palavras". Assim, dei andamento ao assunto desta maneira: ao te prescrever uma medicação anti-inflamatória, seu médico está esperando um resultado na bioquímica dos tecidos que estão sofrendo uma irritação mecânica. Ele também indicou meu trabalho, pois acredita que a fisioterapia irá favorecer uma resposta física, ou melhor, biofísica. Fisioterapeutas, Educadores Físicos, Psicomotricistas e Terapeutas Ocupacionais são profissionais que trabalham com a "física", embora "físico" possa ser um sinônimo da palavra corpo, e o corpo seja o campo de atuação de todas essas profissões.

 

 

Vou te explicar melhor ... e continuei o diálogo com meu paciente construindo todo um pensamento.

 

 

No colégio, mais especificamente no ensino médio, você certamente aprendeu diversos conteúdos das "ciências", que podemos transportar para a sua compreensão da fisiologia. Por exemplo, todas as estrutura do corpo apresentam propriedades elásticas distintas. Se eu me refiro a algo que é elástico, é porque sofre variação de comprimento. Para o nosso sistema biomecânico, comprimento está relacionado a uma maior alavanca e, por sua vez, maior capacidade de geração de força. Você se lembrar de Arquimedes ? Acredito que não tenha conhecido muitos com esse nome ! Este, a quem me refiro, viveu na Grécia há mais ou menos 250 a.C. Foi dele a célebre frase: "Dê-me um ponto de apoio, e moverei o mundo".

 

 

E a Lei de Boyle-Mariotte ? Esses nomes não são estranhos, não é ? Robert Boyle e Edmé Mariotte foram dois cientistas que aparentemente não se conheceram. O primeiro era inglês e o outro, francês. Ambos trabalharam na mesma época e, curiosamente, sobre o mesmo tema. Eles obtiveram o mesmo resultado em suas pesquisas. Por esta razão, a lei de compressibilidade dos gases é conhecida pelo nome dos dois autores. Do que se trata o assunto ? À temperatura constante, o volume ocupado por determinado gás é inversamente proporcional à sua pressão. Assim sendo, se duplicarmos a pressão, o volume será reduzido pela metade (p1xV1 = p2xV2 = constante; p=pressão e v=volume). Qualquer que tenha sido o ano em que você prestou vestibular, com certeza este assunto fez parte de sua prova !

 

 

Vou ilustrar isso, agora, para fazer uma ligação com os dois últimos textos que escrevi ...

 

 

Tente visualizar uma garrafa aberta para a entrada dos gases atmosféricos. Essa garrafa contem um êmbolo transversal que divide este recipiente em uma câmara superior e outra inferior. Esse êmbolo é móvel e quando você realiza um trabalho para descê-lo dentro da garrafa, essa ação aumentará o volume da câmara imediatamente acima dele. Por sua vez, o volume da câmara de baixo será reduzido, mas a massa não sofrerá alteração. Certo ? Acontece que quando a câmara tem o seu volume reduzido sem que ocorra variação da massa, necessariamente teremos aumento da pressão em seu interior.

 

 

A partir dos fenômenos que constatamos pelas leis na física, fica mais fácil observamos a biomecânica, e neste caso específico, compreendermos melhor o que se passa no sistema respiratório. Pense, agora, que essa garrafa é a região tóraco-abdominal e o êmbolo é o músculo diafragma. Como sou seu amigo, deixo para você a possibilidade de escolher se a garrafa será de vinho cabernet sauvignon, de Whisky "paraguaio" ou uma pet 2 litros de refrigerante "não importa a marca". Brincadeiras à parte, as leis da física ocorrerão, quaisquer que sejam as garrafas. Porém, devemos ter em mente que a diferença de tamanho das câmaras das garrafas, a disposição do êmbolo e, uma coisa que não foi mencionada, que é o fator de complacência da própria garrafa, afinal a de vinho é feita de um material diferente da pet de refrigerante, poderão interferir na mecânica pressão X volume quando compararmos os diferentes tipos de garrafas.

 

 

Vamos transportar isso para os nossos conceitos GDS... Comparar nossas diferentes "garrafas tóraco-abdominais".

 

 

Cada tipologia vai fazer um "desenho" dentro da linha de referência GDS. Como as massas e intermassas são interdependentes, ao se posicionarem no espaço, estarão sujeitas aos acordos de nossas cadeias musculares. No último texto disse que PA é a nossa estrutura biomecânica de referência, mas que não devemos considerá-la como um ideal a ser buscado. Ainda mais, por que é impossível encontramos indivíduos arquetipicamente "puros". Nós somos a combinação de todas as estruturas e seus ajustes. Afinal, podemos encontrar alguns ajustes fisiologicamente úteis, enquanto outros estão no nível do aceitável ou, até mesmo, estarem extremamente desorganizantes.

 

 

O que observamos nessa estrutura de referência "ideal" ? Em PA com AP, observamos, no plano sagital, todas as massas alinhadas ao eixo de referência GDS. PA coloca ponto fixo em cima na inspiração e AP flexibiliza as intermassas devolvendo as lordoses funcionais durante a expiração. A oitava vértebra torácica estará sempre no ápice da cifose por que AM estará presente em seu feudo, imprimindo sua marca útil. A PM quando útil, por sua vez, agirá no seu feudo que é o membro inferior, verticalizando o ilíaco e o sacro. PL terá uma dupla função na bacia, imprimir a rotação externa nos fêmures e ao mesmo tempo controlar o fechamento dos ísquios. AL ancorará a cintura escapular à bacia. Ela constitui o elo de passagem da tensão entre as cadeias articulares do membro inferior e superior. Sendo assim, temos os feudos de todas as cadeias musculares imprimindo suas marcas úteis, imprescindíveis para a boa fisiologia. Não podemos esquecer que os pivôs precisarão estar livres para as recorrentes recuperações dos desequilíbrios.

 

 

O que aconteceria se esse PA entrasse em excesso ? Seja em uma PA isolada ou em competição com AP, o tórax terá a forma de um tonel pois estará suspenso à coluna cérvico-dorsal. A pressão na “garrafa tóraco-abdominal” será grande na câmara superior e, também, na inferior. Como tudo está suspenso, nossa fáscia endotorácica impedirá a descida do centro frênico, que corresponde ao nosso êmbolo. As fibras musculares do diafragma assumirão esse ponto fixo que estará mais alto, confirmando a elevação das costelas que também tiveram a ajuda dos intercostais. Qualquer trabalho para reequilibrar a hiperpressão tóraco-abdominal, sem antes devolver a ritmicidade de PA e AP, sobretudo na região cervical (nas regiões cervical e inter-escapular), será de pouca valia.

 

 

A PM em excesso coloca nossas massas anteriormente à linha de referência GDS. Com relação ao tórax, este caracteriza-se por seu grande diâmetro ântero-posterior. O diafragma, coitado dele, acompanha anteriormente a horizontalização do esterno, levando consigo o centro frênico para uma posição mais anterior. Resultado: bloqueio inspiratório. A porção vertebral do diafragma toma ponto fixo embaixo pela retificação da coluna dorso-lombar. Resultado 2: bloqueio expiratório. Diferente de PA, que tem excesso de atividade do transverso do abdome, PM tem um abdome flácido. A pressão na câmara superior de nossa "garrafa" estará altíssima, enquanto na câmara inferior, diminuída. Pessoas com esta característica tipológica irão trabalhar exaustivamente o abdome sem sucesso. Se você se “espanta” com o volume anterior do tórax e com o tamanho da “barriga”, que tal primeiro, observar o que se passa na região tóraco-lombar?  Talvez trabalhar o enrolamento anterior do corpo sobre uma bola suiça para tirar o excesso de tensão posterior e buscar, em seguida, reprogramar a verticalização do ilíaco, do sacro, dos membros inferiores e do esterno seja um bom começo. Concorda ?

 

 

AM em excesso, diferentemente de PM, colocará nossa "garrafa" atrás da linha de referência GDS. Além disso, se caracterizará pela diminuição do diâmetro ântero-posterior. Combinado com AL, teremos, também, a redução do diâmetro lateral, mas com PL, podemos dizer que estaremos diante de um tórax paradoxal, uma vez que encontraremos um aumento do diâmetro lateral. De qualquer maneira, o diafragma assumirá uma posição mais baixa em função da ação cifosante imposta, principalmente, pelo reto do abdome e peitoral maior (feixes esternais e abdominais). A pressão na câmara superior de nossa "garrafa" estará baixa, diferente da inferior que se encontrará bem alta. Sendo assim, a descida do centro frênico só será possível trazendo consigo a coluna dorsal que progressivamente se fixará em uma grande cifose. Quem sabe, o trabalho deva ter início pela redução da pressão da parte inferior da "garrafa" (bacia) antes de dirigir as atenções para a câmara superior ?  Lembre que esse indivíduo pode estar fixado em uma cifose e algumas estruturas intratorácicas podem estar bem encurtadas. Algumas vezes, a posição em decúbito dorsal na maca pode ser o suficiente para deflagrar algumas reatividades. Uma almofada em triângulo ajuda muito nesses casos.

 

 

 

E o AP ? Pessoalmente, acredito que seja a tipologia mais difícil de se trabalhar. Com relação ao tórax, encontra-se achatado por falta de ação muscular. Por essa razão, tem uma característica astênica. A respiração é predominantemente abdominal pela ausência de suporte mecânico. Nessa tipologia se faz necessário um verdadeiro trabalho de construção estrutural. Coloque o paciente de pé, crie a sensação do suporte ósseo de PM, a percepção da base e do volume corporal de AM, e a noção de eixo e ritmicidade de PA com AP.

 

 

Para finalizar: Philippe Campignion afirma que a respiração está intimamente ligada à mecânica global do corpo e, sobretudo, que respirar é preencher espaços. O autor deixa claro que "tipologia não é defeito". As particularidades respiratórias encontradas nas diversas estruturas arquetípicas não correspondem a desvios patológicos, e é extremamente importante compreender que a forma não necessariamente configura um problema. O excesso, porém, pode levar na direção de um quadro patológico.

 

 

 

Respir-Ações ... Meu livro predileto !

 

 

 

Abraço,

 

Alexandre de Mayor

 

 

 

Bibliografia

 

. Campignion P. Aspectos Biomecânicos – Cadeias Musculares e Articulares – Método G.D.S. – Noções Básicas. São Paulo: Summus; 2003.

 

. Campignion P. Respir-Ações. São Paulo: Summus; 1998.

 

 

 

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