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O MÉTODO GDS E SEUS ARQUÉTIPOS

19.04.2011

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O MÉTODO GDS E SEUS ARQUÉTIPOS

 

Como prometi, vou adicionar novos ingredientes ao assunto da semana passada : o equilíbrio do homem de pé.   

 

Para o homem ficar de pé e conseguir andar, leva-se em média 12 meses ... e alguns tombos. Por sorte, a queda nesse momento da vida não é de uma grande altura ! Porém, a história da evolução do homem até a aquisição da bipedia, demorou, certamente, um pouco mais que isso. Ao longo desse período evolutivo, o que foi mais significativamente evidente foram as conquistas advindas do desenvolvimento psicocorporal. Uma vez de pé, sobre um suporte ósseo bem estruturado e em sintonia com os encadeamentos musculares, o homem primitivo pode explorar e dar um passo na conquista do mundo, maior que a distância de suas próprias pernas.

 

O professor do Centro de Formação PHILIPPE CAMPIGNION, Bernard Valentin, revela em seu livro "A autobiografia de um bípede", uma faceta dessa nossa história ancestral. Para isso, precisou voltar no tempo até um período muito anterior à linguagem oral e pediu ajuda aos nossos ossos, músculos e articulações para poder nos contar a trajetória anatomo-fisiológica da evolução humana. Segundo nosso professor, a evolução filogenética da espécie humana gerou inúmeras transformações, entre elas, a adaptação de nossas massas e intermassas (alavancas e pivôs). A passagem da posição quadrúpede para a bípede foi construída pela atividade da cadeia PM. A massa cefálica, por exemplo, que se posicionava anteriormente às demais, desempenhava um papel importante na busca do alimento e nas reações de defesa. Assim, com a verticalização do corpo, muitas funções passaram a não ser mais úteis, enquanto outras, precisaram ser descobertas e aprimoradas do ponto de vista neuromotor. Com relação à coluna vertebral, esta se beneficiou de um sacro vertical entre os ilíacos, o que permitiu o endireitamento do tronco e, posteriormente da cabeça. Para a massa cefálica e as demais não cairem para trás, a cadeia AM ancorou o corpo ao chão com a flexão dos joelhos, imprimiu uma ação cifosante no tórax e reorganizou a função da mandíbula.

 

 

Esse assunto é riquíssimo de informações e, por isso, recomendo a sua leitura. Se você não tiver acesso ao livro e se interessou pelo tema, acesse o artigo no periódico OLHAR GDS Vol. I - As Cadeias Musculares GDS e suas Aplicações Terapêuticas. Periódico Oficial da Associação de Praticantes do Método GDS de Cadeias Musculares e Articulares - Brasil, Rio de Janeiro, 2007

 

 

Vamos continuar de onde parei na semana passada ...  no exato momento em que ocorre uma motivação, é deflagrada a atividade de músculos no pivô primário da pulsão psicocorporal que, por reflexo miotático, recrutará todo um encadeamento de músculos específicos. O corpo, com suas massas e intermassas, assumirá uma forma dentro da linha de referência GDS. Em uma situação fisiológica, os músculos deveriam restabelecer o desequilíbrio desencadeado por essa motivação e, assim, transitarmos de uma atitude postural para outra. Mme. Struyf reuniu estas diversas possibilidades de atitudes psicocorporais e as chamou de tipologias (ou arquétipos, traçando um paralelo com as teorias de Jung).

 

Quando essa tipologia se expressa no corpo e corresponde ao potencial de base (lembrar do exemplo dos "potes vazios") podemos dizer que as cadeias musculares e articulares estão em sintonia com a livre expressão psicocorporal. Porém, se essa tipologia é adquirida sem um potencial de base correspondente, pode "sufocar" as demais estruturas psicocorporais, que de fato, constituem o potencial. Neste último caso, as estruturas em excesso acabam se tornando antagonistas em vez de complementares para o bom equilíbrio mecânico e psíquico.

 

Philippe Campignion descreve que as massas refletem nossa estrutura arquetípica, enquanto as intermassas possibilitam a adaptabilidade das massas. O autor cita: "Se eu não posso alterar a forma da minha cabeça, nada me impede de modificar sua posição no espaço, inclinando-a para trás ou para frente". Em um esquema fisiológico, a massa é um local de resistência, enquanto as intermassas são as zonas de elasticidade do corpo. Porém, em uma situação patológica, as massas se torna móveis, ou seja, observamos que as estruturas que funcionariam como "juntas de dilatação" precisam ampliar em demasia seu movimento. Se você já havia percebido que eu ainda não tinha mencionado as estruturas ligamentares, afirmo que, nessa situação descrita acima, foram os ligamentos hiper-solicitados nas zonas de resistência, que precisaram recorrer à ajuda dos músculos para manter a integridade articular. Os encadeamentos musculares fixados fora de seus eixos mecânicos desorganizarão todo um segmento corporal e até mesmo o corpo como um todo.

 

 

Vamos voltar ao homem em suas origens ....

 

 

Nossos antepassados deixaram o registro de sua passagem pela superfície do nosso planeta. Inúmeras civilizações, diferentes culturas e uma infinidade de tradições desenvolveram-se e deram origem a diferentes modos de comunicação. Por conta disso, as capacidades de trocas relacionais entre os diferentes povos tornaram-se cada vez mais necessárias. Segundo Carl Gustav Jung, fundador da psicologia analítica, carregamos essa herança dos homens primitivos em nosso "inconsciente coletivo". Basicamente, Jung divide os conteúdos psíquicos em pessoais e coletivos. Os pessoais são adquiridos a partir das nossos próprias experiências, enquanto o coletivo, existe "à priori", uma vez que resultam de uma experiência ancestral da espécie humana. Assim sendo, estão prontos para serem concretizados por nossas vivências. Jung comparava o inconsciente coletivo ao ar, não pertence a ninguém, está em todos os lugares e pode ser respirado por todos !

 

 

Correlacionando os conceitos utilizados por Jung com os apresentados por Godelieve Denys Struyf, podemos entender que os três potenciais de base do Método GDS (AM, PM e PA) correspondem aos arquétipos presentes em nosso inconsciente coletivo. São três funções ancestrais que dão origem a três comportamentos fundamentais que expressam a personalidade dos indivíduos.

 

A primeira função inata de um indivíduo corresponde à fecundidade. O homem cria uma base sólida e descobre a estabilidade, lugar este em que encontra a segurança, construirá seu lar e cuidará de sua família. Esse homem valorizará as tradições e todas as suas aquisições. Por ter uma ligação com a terra, seus passos serão medidos na busca de novos projetos. Maternidade é o símbolo que representa essa função que tem profunda ressonância com a atividade da cadeia AM. A pelve, por esse motivo, é a residência de estrutura psicocorporal AM.

 

A função guerreira representa nosso segundo arquétipo. O homem se projeta para a ação, para o trabalho e para a busca do conhecimento. O medo é o símbolo que representa essa função. Ter medo nos coloca em estado de prontidão frente a qualquer ameaça. O medo não deveria ter uma conotação negativa, já que levará o homem na busca do saber. Ele estará sempre pronto para aprender, para explorar e dominar o meio em que vive para não precisar se ver diante de uma nova ameaça. Essa atitude resulta de uma atividade da estrutura psicocorporal PM, que tem no tórax a sua residência. Aliás, seria apenas uma coincidência bater no peito quando conseguimos vencer nossos desafios ?

 

A última função está relacionada ao sagrado, à espiritualidade e à individualidade. O crânio, sede da intuição, é a residência da estrutura psicocorporal PA. Enquanto PM fala de um "mental" mais relacionado com o raciocínio lógico, com a cerebralidade, PA nos fala de um "mental" em sintonia com a percepção fina do que nos cerca, em um sentido mais energético, espiritualizado, intuitivo. É PA quem nos dá a noção de que somos seres absolutamente únicos, em comunhão com o universo que está em torno de nós.

 

 

Essas experiências ancestrais da espécie humana, presentes em nosso inconsciente coletivo, estão prontas para serem concretizadas a partir nossas vivências. Trabalhar a estrutura AM nos proporciona a consciência do corpo, de que estamos dentro de algo que nos contém, nos protege e nos organiza. PM, por sua vez, irá nos oferecer a nossa vivência de estrutura e de consistência. A presença do osso em nós nos garante esse verdadeiro suporte estrutural. Nossa estrutura de referência, nosso eixo vertical, é obtida por PA.

 

 

As estruturas psicocorporais AP, PL e AL também possuem residências. AP, que é responsável pela adaptabiidade, deve transitar livremente por outras residências. Mas a região da face é o território onde ela impera, em função da mímica facial. Para a residência de PL e AL, podemos citar o exemplo do pássaro. Com suas asas pode voar e chegar ao lugar mais longe possível e com suas patas será capaz de levar o alimento para o seu ninho. PL está no membro superior enquanto AL no membro inferior.

 

 

Outro conceito importante para o Método GDS é a fachada.

 

O que seria isso ?

 

 

Por exemplo, eu sou fisioterapeuta e educador físico, e por isso desempenho um papel na sociedade. Meus pacientes e a própria sociedade esperam que eu adote condutas terapêuticas para restabelecer o bom equilíbrio fisiológico do corpo, reeducar as atividades funcionais e minimizar um quadro álgico. Portanto, a fachada se refere a como me comunico com a sociedade onde vivo e se me coloco de acordo com os papéis por ela exigidos. Mas, como qualquer forma de relação, possui dois lados, o bom e o ruím. Eu não sou fisioterapeuta o tempo todo. Em casa sou pai e marido. Também sou filho e amigo. Sendo assim, tenho muitas fachadas para utilizar. Se não me flexibilizo para me ajustar aos diferentes papéis que preciso desempenhar, me tornarei uma pessoa rígida e, certamente, estarei fixado a uma forma específica de funcionamento psicocorporal.

 

Nossos músculos devem restabelecer, constantemente, o desequilíbrio desencadeado por todas as nossas motivações psicocorporais, para assim transitarmos de uma atitude postural para outra. Isso vai nos permitir utilizar e ajustar todos os personagens que vivenciamos no nosso dia-a-dia. Qualquer que seja o papel a desempenhar, estarei transitando por minhas diferentes motivações. Como profissional da área da saúde defendo meus ideais (PA), tenho diversos projetos a realizar, como por exemplo, esse Blog semanal (PM) e quando um paciente me relata que está melhorando de seus sintomas, o afeto que ele desperta em mim me faz sentir reconforto e empatia (AM). Ou seja, estou preenchedo todos os meus potenciais, qualquer que seja o setor da minha vida cotidiana. Isso é o fisiológico !

 

 

Ao longo desse texto, mencionei alguns conceitos que não foram citados diretamente como fontes primárias das pesquisas de Mme. Struyf. O Método GDS não se propõe a ser uma abordagem psicoterapêutica, pelo contrário, seu objetivo é abordar fundamentalmente o corpo, levando em consideração a influência do psicocomportamento. Neste sentido, teóricos como Jung, Freud e Winnicott podem nos ajudam a compreender o funcionamento e o desenvolvimento psíquico humano, fornecendo informações importantes ao "quebra-cabeças" que tentamos descobrir.

 

 

Agora que você está mais familiarizado com o alfabeto do corpo (AM, PM, PA, AP, PL e AL), já será capaz de associar os diversos conceitos e símbolos que estão por trás de cada uma destas siglas, aos aspectos mecânicos. Na próxima semana, meu objetivo será ampliar o tema Cadeias Musculares e Articulares dentro de um raciocínio sistêmico: a penta-coordenação.

 

 

 

Alexandre de Mayor

 

 

 

 

Bibliografia

 

 

. Campignion P. Aspectos Biomecânicos – Cadeias Musculares e Articulares – Método G.D.S. – Noções Básicas. São Paulo: Summus; 2003.

 

. Denys-Struyf G. Cadeias Musculares e Articulares - O Método G.D.S. São Paulo: Summus; 1995.

 

. Jung C. G. O homem e seus símbolos. Editora Nova Fronteira; 1996.

 

. Valentin B. Autobiografia de um bípede- As Cadeias Musculares e Articulares - Método G.D.S. Florianópolis: Ed. Insular; 2009.

 

 

 

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